Amar a si mesmo

Artigo publicado na Revista Vida Simples (Junho de 2016) escrito por Karen Vogel

Estávamos trabalhando há dois meses, Daniel (nome fictício) e eu. Suas emoções estavam o desafiando a ponto de pedir ajuda. Começamos a nos ver em sessões semanais de psicoterapia. E foi assim, em uma de nossas conversas, que ele disse: “eu sempre penso que nunca está suficientemente bom o que eu faço, estou sempre me criticando por meu desempenho mediano. Até aqui com você, me esforço para fazer boas análises, mas sempre saio sentindo que não está bom. O que eu faço não está bom. Meu corpo não está bom. ”

Ser duro consigo mesmo é algo familiar para muitos de nós. Temos uma tendência a nos distanciar das nossas emoções como a raiva, o medo e a vulnerabilidade cobrindo-as com autojulgamento. E é assim que alimentamos a cada dia o nosso pequeno (ou grande) tirano que vive dentro de nós. Ele aparece exatamente quando estamos em sofrimento. Naquele exato momento em que mais merecemos acolhimento e não crítica.

E foi em um desses nossos encontros que sentamos Daniel e eu para conhecer mais sobre seu pequeno tirano interno. Visitamos momentos onde ele é realmente duro e frio. Percorremos exemplos de sua vida onde ainda criança se lembrou de ser muito duro consigo mesmo, principalmente com as notas da escola. E foi em um desses dias que ele, carinhosamente, apelidou seu pequeno tirano de “Zé”. E se despediu de nosso encontro daquela semana me dizendo: “Vou levar o Zé para dar uma volta”. Neste dia, Daniel começou a aceitar a existência de uma parte de si. E viu que poderia fazer, a partir daquele momento, uma escolha: amá-lo ou odiá-lo. Daniel passou a ter consciência de quando está julgando a si mesmo e aos outros: “Olha o Zé aí de novo! ”

É assim que podemos começar um novo relacionamento com nós mesmos. Levar aceitação e compaixão para nosso tirano interno pode ser o caminho de início para uma nova relação conosco. Conhecendo aquela parte que não gostamos, que nos sentimos envergonhados ou raivosos em nós. Certamente nossos “Zés” aparecerão, fardados como generais. E aí passaremos a conhecê-los, aprenderemos sobre seus hábitos e costumes. Reconheceremos neles além da crítica e do julgamento, um instinto protetor. De alguém dentro de nós que não quer que nos sintamos tristes por nossas falhas, que se preocupa em ser melhor, em se desenvolver. Esse tirano interno salvou nossa pele em muitos momentos. Nos fez estudar para as provas pois senão perderíamos o ano. Nos livrou de algumas broncas e castigos.

Nosso desejo por amor, atenção, aprovação e aceitação está na base do que todos nós seres humanos gostaríamos de vivenciar. Muitas vezes conseguimos isso através dos outros: um pai, uma mãe, um irmão, um grande amigo ou um cuidador. Mas muitos de nós temos feridas deste desejo não correspondido. Sedentos deste amor não recebido, sentimos mágoa, tristeza e raiva pois não fomos compreendidos, amados e aceitos como somos. Uma ferida que dói e sangra, profundamente.

É assim que, através do autoamor, reavaliamos nossas cobranças para que os outros nos ame, nos compreenda e nos aceite. E este “outro”, na maioria das vezes, está confuso e atarefado tentando resolver suas próprias questões sobre a falta de amor e de aceitação que também não recebeu.

Amar a si mesmo envolve completo perdão, aceitação e respeito por quem somos, sobre as partes bonitas sobre nós e também as sombrias. Quando há autoamor, nós cuidamos de nós mesmos, nós honramos nossas limitações, nós estamos atentos às nossas necessidades. Desenvolvemos conosco o mesmo carinho e cuidado que temos com um amigo querido. Como exemplos deste autoamor, podemos suavizar a nossa autocrítica quando erramos, podemos cuidar da nossa alimentação, evitar ações que nos fazem mal ou prejudicam nossa saúde, ir àquela consulta médica que temos postergado, nos afastamos de relacionamentos tóxicos ou evitamos nos sabotar com ações inconsistentes aos nossos valores.

Substituiremos o velho e conhecido “eu não sou bom o suficiente”, “tenho que ser mais magro ou mais forte”, “preciso ser mais assim como ele”. As frases geralmente começam com: “tenho que”, “devo”, “é melhor que”. No entanto, a partir de agora, uma voz mais terna e amorosa toma lugar da antiga autocrítica. E é nesta hora que a compreensão de nossas limitações como seres humanos começa a emergir. Um entendimento sobre o quanto somos falhos e o quanto merecemos amor mesmo assim.

A descoberta desse amor por si pode vir das maneiras mais improváveis. Pode vir de uma busca incessante por um relacionamento e suas repetidas frustrações. Ou ainda, vir a partir do medo da rejeição, pelo medo de ser (novamente) abandonado. Ou de ser bonzinho para que o outro nos aceite e goste de nós. Percebemos esta busca desenfreada pelo outro e não percebemos que nos tornamos mendigos. Mendigos de amor, de aceitação e de compreensão.

Através do autoamor nos tornamos responsáveis para dar, a nós mesmos, todo amor, cuidado e apoio que buscamos no outro sem sucesso. Nós oferecemos aquele colo e aconchego que almejamos e que talvez nunca tivemos. Nós desenvolvemos um cuidado por nós e uma atenção nunca antes vivida. E este amor sempre esteve aqui, dentro de nós. Estava apenas esperando para despertar.

Pesquisadores norte-americanos estão em campanha para que as escolas substituam os programas de desenvolvimento de autoestima para programas de autocompaixão. Quando trabalharam com a autoestima, eles afirmam observar um aumento da autocrítica para alcance dos objetivos. Além disso, eles verificaram um aumento da competição entre alunos para que um seja o vencedor e outro o perdedor. No programa de autocompaixão, o objetivo é suavizar a autocrítica e trabalhar com a cooperação do grupo e não a competição.

Quando estamos aprendendo sobre o autoamor, geralmente confundimos o tema com auto piedade ou pena. É comum ouvirmos: “Mas se eu for doce e gentil comigo mesmo eu vou me acomodar” ou “se eu não pegar no meu pé aí sim eu vou me acomodar! ”. Esta é uma dúvida muito comum. Via autoamor, não deixamos de buscar melhorar e nos desenvolver. O que mudaremos é a forma de agir, como será a busca por estas melhorarias. As ações serão as mesmas, mas a voz interna é de encorajamento, de persistência carinhosa diante dos desafios.

E foi parte deste processo de despertar que Daniel dividiu comigo uma carta que havia feito para ele mesmo. A carta dizia: “Você é a pessoa que acorda todos os dias comigo. Aquele que respira comigo, que anda comigo, aquele com o qual converso e canto. Aquele que está comigo todo santo dia de minha inteira existência. Você é com quem adoeço junto, aquele que chora comigo, que divide comigo as situações de raiva e alegria. Você é aquele que vai morrer comigo, aquele que me acolhe quando algo não sai como eu gostaria. Você é meu companheiro constante, minha casa, minha razão. Eu escrevo isto para você pois agora temos um ao outro. Você nunca mais estará só”.

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2 comentários sobre “Amar a si mesmo

  1. Eu cansei de ser duro comigo mesmo. Queria tudo, queria ser alguem que nao era, queria ser um homem de verdade, um homem temido, queria ter ideias fascistas, queria ser realizado, queria vencer na vida, queria ser classe media, queria viver intensamente, corria perigos, nao aceitava que ninguem zombasse de mim, reagia de modo que beirava a psicopatia, e ainda tinha uma visao artistica disso tudo, que nao me ajudava em nada, so me causava uma pressao interna das piores. Sempre tive varios e varios inimigos. E ainda tinha um estilo de vida contrario as normas sociais. Hoje resolvi mudar. Nao quero mais saber do passado, quero ser outra pessoa. Quero ser leve comigo mesmo.

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