Como não ter mais problemas

Amei este texto do Gustavo Gitti, que saiu na revista Vida Simples. Ele fala sobre como a nossa mente é adicta a criar problemas e como a resiliência pode nos ajudar.

  Durante um chá, café ou Skype, enquanto a pessoa conta sobre seu relacionamento, uma parte de mim compreende o quanto a história é mesmo complicada, mas a outra parte pergunta: onde exatamente está o problema? Desconfio que ela só reclama de algo específico porque ainda não desistiu da esperança de se relacionar sem complicações. Ora, enquanto nossas mentes forem embaçadas e tensas, sem treinamento algum, como esperar que nossas relações sejam diferentes? Porque podemos trabalhar com qualquer situação, não seria errado dizer que ninguém tem problema. O problema começa quando a pessoa tranca, risca uma linha e diz: “Isso é um problema, isso não deveria acontecer, agora eu tenho de fazer algo diferente do que eu gostaria!”

  Imagine que eu faça uma trilha para chegar o quanto antes a um lugar onde serei benéfico. Sou picado por alguns mosquitos, começo a me debater, me jogo no chão e fico ali, gritando e chorando. Sofrimento é isso. O problema nunca é a picada, nunca é o que acontece, mas nossa incapacidade de seguir — e toda a cadeia de reações a partir do momento em que trancamos. Ora, após a picada, o que preciso fazer não é diferente: é a mesma coisa que eu estava fazendo. Basta seguir respirando e avançando. Mesmo se a picada for venenosa, seguir significa buscar um antídoto, uma injeção, mas é seguir, não é travar.

  Onde está o problema? Um buraco, um mosquito, uma tempestade, um assalto não são coisas externas à trilha, não nos tiram da trilha. A trilha é isso! Traição, morte, doença, dívida, brigas, adversidades, nada disso é externo à vida. Quando alguém nos trai, onde está o problema? Sofremos quando não conseguimos seguir e reconhecer o obstáculo como o próprio caminho para mais equilíbrio, sabedoria e compaixão. Para uma pessoa que ainda não descobriu seu potencial interno, sim, um problema é realmente um problema — não adianta fingir que não é. Mas para uma pessoa que tem métodos de transformação, quanto maior o problema, maior a oportunidade de abrir o coração, liberar as fixações mentais, oferecer, ajudar.

  Quanto maior a bolha de seriedade, maior o sorriso necessário para atravessá-la. Mesmo a pior situação é aproveitada. Tudo se torna uma diversão. Conseguimos apreciar e nos deliciar com qualquer experiência, venha como vier, do jeitinho mesmo que vier. Não mais rejeitamos a vida. Nesse sentido, nossa prática é seguir. Incessantemente, sem travar. Quanto mais fazemos isso, mais nossa energia se torna autônoma, sem depender tanto do que acontece ao redor. Destemidos, estáveis, e também relaxados, sensíveis e disponíveis, nos capacitando para sermos úteis quando tudo desabar.

  A palavra em sânscrito para essa qualidade a ser cultivada é virya, ora traduzida como esforço, diligência ou perseverança. A melhor tradução que já ouvi é “energia constante”. Constante porque ela surge não pela força pessoal de carregar um fardo, mas da própria vida, que segue e nos desafia a seguir junto.

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O que é autocompaixão?

 

             Este texto surgiu de uma dúvida de uma das pessoas que convidei para o lançamento do meu novo livro sobre autocompaixão “Quando aprendi a me amar” (convite em anexo!). Ela responde meu convite da seguinte forma: “Querida Karen, vou sim no lançamento mas me explique, o que é autocompaixão?”

           Como a resposta parecia complexa e bastante pertinente, achei melhor escrever este texto para entendermos melhor sobre o tema. Para iniciar, talvez fosse importante começarmos com o conceito de compaixão. O termo tibetano para compaixão é nying je, que significa “conotação amorosa, afeição, gentileza, generosidade”. A compaixão entra em evidência quando o mundo enfrenta questões como as crises econômicas, as disputas religiosas, o preconceito e outras questões que tem favorecido a necessidade de uma maior cooperação e menor competição entre as pessoas. Assim, a compaixão seria fundamental para a natureza do coexistir em grupo e para a nossa adaptação ao meio.

             Paul Gilbert (2014) define compaixão como uma consciência profunda do sofrimento de uma pessoa ou dos seres humanos e um esforço para amenizá-lo. Assim, observamos na definição deste autor que dois aspectos são fundamentais para definirmos se o que sentimos pode ser compaixão ou não: 1) a presença de sofrimento e 2) uma ação para o amparo, acolhimento ou diminuição do sofrimento. Vejamos um exemplo: se estou com dor de cabeça, uma pessoa pode perceber que estou em sofrimento e oferecer um analgésico. Neste caso observamos: 1) a presença do sofrimento (dor de cabeça) e 2) uma ação de amparo, acolhimento ou diminuição do sofrimento (oferecer um analgésico).

         Utilizamos o termo compaixão quando falamos desta sensibilidade ao sofrimento de outras pessoas. A sensibilidade ao nosso próprio sofrimento nomeamos como autocompaixão. Pema Chödron (2007) diz que apenas quando conhecemos a nossa própria escuridão nós podemos estar presentes na escuridão do outro.

            Por que é tão difícil manifestar o mesmo carinho e cuidado que oferecemos para as pessoas que amamos para nós mesmos? Por que somos tão duros e críticos conosco em momentos que precisamos de amparo e aconchego? Por que não nos tratamos com a mesma sensibilidade que tratamos as pessoas que amamos?

         Estas são as perguntas que a ciência da autocompaixão tem procurado responder. Pesquisadores ao redor do mundo estão cada vez mais interessados nos efeitos que a compaixão pode trazer para o manejo do sofrimento e estão em busca de compreender como isso se dá. Kristin Neff (EUA), Paul Gilbert (Inglaterra), Karen Armstrong (Inglaterra), Kristhopher Germer (EUA), Thupten Jinpa (Tibet / EUA), Javier García Campayo (Espanha), Lama Tenzin Negi (EUA) e os ensinamentos do Budismo Tibetano pelo Dalai Lama são bibliografias significativas sobre o tema. Alguns autores desenvolveram propostas terapêuticas e até mesmo modelos de psicoterapia individual que visam o desenvolvimento e o treino da compaixão e da autocompaixão.

          Cenas do próximo capítulo: para este texto não ficar muito longo, prometo escrever em um próximo post sobre alguns dos componentes da autocompaixão: a gentileza, mindfulness e a humanidade comum. Espero todos no dia 6 de Novembro!

Referências:

Chodron, Pema (2007). The places that scare you: a guide to fearlessness in difficult times. NY: Shambala

Gilbert, P. e Choden (2014). The Mindful compassion. EUA: New Harbinger

 

 

 

 

O que fazer com essa sensação de vazio?

    Muitas pessoas sentem uma sensação de vazio. É assim, como se algo nos tivesse faltando. Muitos de nós sentimos assim em alguns momentos da vida, outros de nós permanentemente. Procuramos em vários lugares preencher esse vazio: na comida, nos relacionamentos amorosos, em viagens, comprando sapatos ou relógios. E muitas vezes não conseguimos identificar exatamente por que nos sentimos assim. Colocamos a culpa naquela rejeição, ou na falta de propósito da vida, no tédio, por não termos um número suficiente amigos, ou por inúmeros outros motivos. Mas continuamos sem saber sobre esse vazio, essa sensação de que algo nos falta. Uma sensação tão humana e ao mesmo tempo tão incômoda.

    O autor americano Bob Hoffman nos ensina que no núcleo do vazio, encontra-se uma falta de amor por si mesmo. Um artigo publicado no HuffingtonPost.com, escrito por Margaret Paul, vai além: “Há apenas uma coisa que realmente preenche o vazio: o amor. Há apenas uma causa para este vazio interior: a falta de amor. Mas não é uma falta de amor de outra pessoa que faz com que o seu vazio seja preenchido. O vazio interior é causado pelo autoabandono, por não amarmos a nós mesmos “.

    Aristófanes, um dos participantes do famoso diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C. O Banquete, diz que no início dos tempos os homens eram seres completos: possuiam duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, o que permitia a eles um movimento circular muito rápido para se deslocarem. Zeus resolveu castigar os homens por sua rebeldia contra os Deuses e tomou na mão uma espada e cindiu todos os homens, dividindo-os ao meio. Dessa forma, os homens sairam à procura da sua outra metade. Tendo assumido a forma que nós temos hoje, os homens procuram, pois a saudade nada mais é do que o sentimento de que algo nos falta, algo que era nosso antes e que agora nos falta.

    A sensação de vazio, portanto, já era descrita na época “antes de Cristo”. O Banquete de Platão evidencia esta parte dos seres humanos que estão em busca daquilo que falta e que muitas vezes procuramos em um relacionamento amoroso, na busca por nossa metade complementar. Mas agora, nós sabemos que nenhum homem ou nenhuma mulher fará nossa sensação de vazio ser curada. A cura para o nosso vazio estaria, segundo Hoffman e Paul, em nosso próprio amor.

    Temos todas as razões do mundo para amar a nós mesmos, agora mais do que nunca. Mas quando se trata de se engajar neste exercício, ficamos sem saber o que fazer. Para nos ajudar nesta habilidade, Paul sugere algumas práticas:

  • Olhar no fundo dentro de si para entender o que sentimos, isso pode se dar através da prática da meditação. É preciso coragem para olhar de frente as nossas feridas e aprendermos a amar nossas cicatrizes, mas este é um passo necessário no caminho para o amor próprio.
  • Podemos tomar uma decisão: fazer uma escolha de continuar a amar a nós mesmos não nos importando o que as pessoas pensam de nós, quais os erros que cometemos, ou quais caminhos tomamos na vida.
  • Nos envolver em atividades que nos faz sentir bem.

Eu acrescentaria um mais um item, a partir dos estudos da ciência da compaixão:

  • Observar a forma como nos tratamos. A autocrítica e o julgamento são formas de tratar a si mesmo. Podemos começar observando tais pensamentos, sua frequência, seus padrões. Podemos também incluir outras formas mais amorosas e mais gentis de falar consigo mesmo.

Bibliografia:

Hoffman, Bob (1991). O desvendar do amor. São Paulo: Cultrix

Neff. K. (2011). Self Compassion: stop beating yourself up and leave insecurity behind. NY: Harper Collins

Paul, M. Disponível em https://www.powerofpositivity.com/4-ways-to-fill-the-20ptiness-in-your-life/?c=PoPInspiration

 

Você é um buscador da auto-estima?

  A grande angústia da vida moderna é esta: não importa o quanto tentamos, não importa quanto bem sucedidos somos, não importa se somos bons pais, trabalhadores ou bons cônjuges, isso nunca será suficiente. Sempre haverá aquele mais bem sucedido, mais inteligente, ou mais poderoso do que nós, alguém que nos faz sentir menores na comparação.

  Uma resposta a isto veio do movimento da auto-estima. Ao longo dos anos, milhares de livros e artigos de revistas promovem a auto-estima, formas de obtê-la e como aumenta-la. Nossa cultura nos ensina que precisamos ter auto-estima elevada, as revistas femininas que o digam. Abordam o tema como assunto de capa.

  Mas a necessidade de avaliar-nos continuamente de modo positivo vem com um custo elevado. Por exemplo, a auto-estima elevada geralmente requer que estejamos na média especial ou acima. Um bom exemplo é o sucesso das blogueiras ou ser aquele popular nas rodas de amigos. Ser chamado de mediano pode ser considerado hoje um insulto. E assim, nosso valor se dá a partir do processo de se comparar com o outro. A busca para elevar a estima à custa do social é um fenômeno que está subjacente em muitos problemas tais como o preconceito, a desigualdade social, e principalmente o bullying. Bullies mexem com as pessoas mais fracas do que eles mesmos como uma maneira  de aumentar sua auto-estima (entre outras funções).

  Uma das consequências do movimento auto-estima ao longo das últimas décadas é a epidemia do narcisismo. Jean Twenge, autor de Generation Me, examinou os níveis de narcisismo de mais de 15.000 estudantes universitários nos EUA entre 1987 e 2006. Durante esse período de 20 anos, as pontuações de narcisismo atingiram o índice de 65% nos estudantes modernos. Valores altos e impressionantes.

  Mesmo quando estamos com a auto-estima elevada, podemos não mantê-la. Sua auto-estima pode voar para fora da janela na próxima vez que você falhar ou não ser convidado para aquele evento onde todos foram. Auto-estima é uma montanha-russa emocional: ela sobe e desce proporcionalmente ao nosso sucesso ou fracasso.

  Pesquisadores norte americanos descobriram uma outra maneira de nos sentirmos bem porém sem envolver avaliação: a autocompaixão. Autocompaixão não se baseia em avaliações positivas sobre nós mesmos. Pelo contrário, é uma maneira de se relacionar consigo, independente do seu sucesso ou fracasso. Trata-se de ser cuidadoso e se dar apoio quando falhamos, quando nossa auto-estima está lá embaixo. As pessoas são compassivas consigo mesmas porque elas são seres humanos e sofrem, não porque são acima da média ou especiais. Ao contrário da auto-estima, portanto, a autocompaixão enfatiza a interligação ao invés da separação. Ela também oferece mais estabilidade emocional, porque está sempre lá para você, quando você está no topo do mundo e quando você cai de cara no chão.

Karen Vogel falará sobre os Desafios da auto-estima ( e a saída: autocompaixão!) em um evento online dia 14 de Setembro das 19:00 às 20:30. Aberto ao público.

Saiba mais em http://www.ibmind.com.br/cursos.html.

 

Quando uma pedra nos ensina sobre aceitação

Você chegou para mim em um lindo sábado de sol.

Fui ler sobre você, o Quartzo Rosa, e vi que você é a pedra do amor (incondicional)

Eis que descobri porque você tinha vindo.

Mas eis que você, ao chegar, traz uma linda lição.

Olhei para você e me incomodei com os seus “pretinhos”.

Achei que você estava suja e resolvi com todo empenho ajudá-la a ficar “limpa”.

Lavei você, esfreguei você, passei álcool.

E nada.

Não me dei por vencida e saquei uma lixa da minha gaveta.

Lixei você, esfreguei, esfreguei, esfreguei.

Tentei de tudo.

E lá os pretinhos permaneciam.

Até que você decidiu falar comigo enquanto eu te lixava.

“Porque você não me aceita como sou”?

Sim, você falou comigo.

Eis a primeira grande lição que você, linda pedrinha, veio ensinar.

Aceitar você, com o seu lindo rosa intenso e seus pretinhos.

Que pedra linda você se tornou!

Obrigada por esse lindo ensinamento.

Por Karen Vogel em 17 de Agosto de 2016.

Porque se voltar contra si mesmo?


Você se sente triste, magoado, perdido, com medo, longe de vivenciar o amor.
Você se sente indigno, sem ser notado, não reconhecido.
Você se sente irritado algumas vezes.
Frustrado.

Mas você encobre tudo.
Você coloca uma máscara.
Você finge estar bem.
Você se torna brilhante em fingir.

Você joga o jogo do “estou bem”.
Da
quele que põe uma máscara.
Da
quele que não sente.

Por que nos dividimos em dois?
Por deixamos metade de nós na escuridão?
Por que falseamos uma imagem de si mesmo?

Para conquistar o amor?
Para sermos amados? Aceitos?
Para nos proteger contra a dor da rejeição?
Para controlar opiniões dos outros sobre nós?

Por que você se importa tanto sobre ser amado pelos outros?
O que importa, se o mundo inteiro rejeita você,
mas você no fundo sabe que você é real?
Por que nos esgotamos, fingindo uma mentira?

Quando que o amor se tornou algo que nós tínhamos que ganhar? Ou implorar por?

Porque nós
, seres humanos,  não vemos
que podemos amar a nós mesmos exatamente do jeito que somos?

Adaptado de Jeff Foster por Karen Vogel

Imagem Nina Pandolfo

A importância da Tristeza

E se eu lhe dissesse que o caminho para mudar o mundo não seria ser corajoso, firme, brilhante ou mesmo compassivo? E se o caminho para mudar o mundo seria experimentar a tristeza?

Quando pensamos em quem nos ensinou sobre mudanças significativas, pensamos em pessoas que são muito, muito corajosas: Martin Luther King, Mahatma Gandhi, o Dalai Lama. Inabaláveis e profundos. Dedicados aos outros e dispostos a morrer por aquilo que acreditam, literalmente.

Como podemos chegar a ser uma pessoa assim?

Quando você olhar para este mundo, vai ver coisas que o deixarão muito, muito triste. Isso é bom. Isso é sinal de que você está vendo claramente. A genuína tristeza dá lugar, espontaneamente, ao desejo de fazer o bem para os outros ou melhorar o mundo. Quando seu desejo de ajuda está enraizada no amor (graças à tristeza),  isso se torna algo benéfico. Não há dúvidas.

Mas porque a tristeza é tão desconfortável, nós imediatamente buscamos transformá-la  em algo que imaginamos doer menos: raiva, desesperança, desamparo. E falhamos. Aí, o desespero ou frustração é o que acontece quando você luta contra a tristeza. A aceitação é o que acontece quando você não luta. A autocompaixão é quando você reconhece seu sofrimento e tenta se dar conforto e apoio no momento da tristeza. Podemos até dar compaixão para a nossa tristeza. Porque tanta guerra com ela?

A meditação também nos ensina sobre ela: a relaxar com o desconforto (da tristeza) e ficar com ela, não transformá-la em outra coisa. Conhecê-la, ver a cara que ela tem. Será que ela é tão assombrada assim? A busca não é por se sentir “bem”, mas sim nos abrir para a tristeza talvez até para nos sentir vivos e esta vivência poder ser o caminho para uma vida realmente vivida. Portanto, a chave é aprender a estabilizar o seu coração no estado de abertura. A prática da meditação ajuda nessa estabilização. É muito mais do que uma técnica de auto aperfeiçoamento, é um caminho para o amor, para a aceitação.

Se você abrir seu coração para a tristeza, você pode mudar seu mundo. E depois o nosso mundo.

#Mindfulness #aceitação #compaixão #autocompaixão

Adaptado de Susan Piver por Karen Vogel.